Por Simone Patrocínio
Calmaria
Ela chegou sem alarde.
Não abriu portas, não fez ruído.
Apenas esteve.
E eu, que vinha com o coração em modo de defesa,
descobri que a doçura não empurra.
Ela espera.
Ela tem esse jeito raro
de tocar sem prender,
de cuidar sem pedir garantias,
de ser presença sem ocupar o ar inteiro.
Há nela uma maturidade que acalma
e uma suavidade que não diminui a força.
Ela sabe ficar.
E ficar, aprendi, é um verbo imenso.
Nos nossos encontros,
a leveza não foi fuga,
foi descanso.
O afeto não veio com promessas,
veio com verdade.
Meu coração, ainda cauteloso,
se sentiu respeitado.
Porque ela não me pediu futuro,
mas me ofereceu o agora.
E o agora, com ela,
tem gosto de coisa boa
que não precisa durar para ser real.
Nos encontramos.
E isso bastou
para que 2025 fosse mais suave
do que eu esperava.
Leveza
O vinho não pesa.
Ele repousa.
Aprendi com ele
que a vida não pede pressa,
pede escuta.
Há um tempo certo
para abrir,
outro para deixar respirar,
e um instante exato
em que tudo acontece
sem esforço.
A leveza não mora na falta,
mora no excesso que foi embora.
Um gole me ensinou
que profundidade não afunda
quando é aceita.
E então entendi:
viver bem
é saber parar
antes de transbordar.
Fogo nos olhos, brisa na alma
Ela chega como quem carrega o mundo nos ombros,
mas pisa como quem não quer ferir o chão.
Há músculos que desenham força,
e, no entanto, é a leveza que primeiro me toca,
a alma arejada, a energia mansa, o gesto que acolhe sem promessa.
O sorriso dela é de menina que acabou de descobrir o sol,
uma alegria que nasce nos cantos da boca
e acende tudo ao redor sem pedir licença.
A voz, rouca e tranquila,
tem o ritmo de quem já chorou, já lutou, já renasceu
e escolheu ser brisa, não tempestade.
Ela fala com as palavras, sim,
mas é no olhar que me atravessa.
Um olhar de mulher que conhece o fogo,
e de menina que ainda se espanta com a vida.
É ali que mora o convite silencioso:
vem ver o que eu ainda posso ser.
Há algo de luminoso no modo como ela se desabrocha,
como abre asas na maturidade e deixa cair, sem culpa,
as bagagens que não lhe servem mais.
É bonito demais vê-la escolher leveza
depois de ter conhecido o peso.
E eu, que apenas observo,
sinto o coração aquecer,
como se sorrisse por dentro,
mudo e inteiro,
porque ela existe assim:
forte no corpo, livre na alma,
e tão encantadora
que me toca sem encostar.
Primeira remada
Hoje o mar me recebeu de novo.
Não como visitante, mas como parte.
Eu, a canoa, o remo e a água: quatro respirações do mesmo corpo.
O silêncio era de uma beleza que doía.
A canoa deslizava e eu deslizava junto,
sem saber se era eu quem movia o mar
ou se era o mar quem me movia por dentro.
Na solidão doce da V1,
descobri que estar só não é ausência,
é encontro com o ritmo, o vento, o sal,
com a mulher que ainda se constrói em cada remada.
E assim eu sigo
me compondo,
me desmanchando,
me refazendo
ao sabor da maré que me chama pelo nome.
Luto da desilusão
Era você, mas não era.
Era meu reflexo vestido com a sua pele,
minha esperança com o seu nome.
Projetei em você a forma exata
do que eu queria tocar.
E então, quando o espelho se quebrou,
quando seus gestos não correspondiam
à personagem que eu havia criado,
doeu como morte.
Porque era o fim de uma história
que nunca existiu fora de mim.
Chorei não por você,
mas pelo castelo que ergui no vento.
Era luto pela ilusão,
pelo retrato inventado.
Mas junto ao desmoronar,
veio o ar novo.
O peso da fantasia se esfarelou,
e pude enfim enxergar você
sem a moldura que lhe dei.
Estranhamente, foi leve.
Descobrir o humano em você,
com falhas, limites, medos,
foi também libertar em mim
a possibilidade de amar sem exigir perfeição.
O luto trouxe verdade.
E a verdade trouxe espaço.
E no espaço vazio a vida,
sempre teimosa,
começou a nascer outra vez.
Encolhida
Dormir encolhida é um segredo do corpo.
É como se a gente se guardasse dentro de si,
feito concha protegendo a pérola,
feito criança que volta para o ventre da mãe.
Não é fraqueza, é instinto de sobrevivência.
É o corpo dizendo: me cubro para não me perder.
Encolher-se é construir um abrigo com a própria pele.
É dizer ao mundo: agora não.
É se permitir ser pequena,
porque ser pequena também é um jeito de se cuidar.
E há nisso uma sabedoria antiga:
antes de se abrir a semente também se fecha.
Antes da asa, o casulo se fecha em silêncio.
Dormir assim é confiar
que a vida cuida do que é frágil,
que mesmo no espaço estreito do próprio corpo
a gente pode encontrar repouso.
E talvez, ao despertar,
desse recolhimento venha a força de se esticar,
de ocupar o espaço que é nosso
sem deixar de honrar a delicadeza que nos protege.
Solitude
A solitude é uma casa sem fechaduras.
Nela entro descalça e só o silêncio me recebe.
Não é solidão, é encontro.
É quando me escuto sem ruídos,
quando percebo que as respostas não estão fora,
mas escondidas nas minhas frestas.
No silêncio, até o pequeno ganha voz:
o ranger da madeira,
o voo breve de um pássaro,
o sopro do vento que passa quase despercebido.
Essas miudezas falam mais do que mil discursos.
Perdida, achei que precisava de mapas.
Mas era só de escuta.
A solitude me abriu portas invisíveis,
caminhos que nascem dentro
e me levam de volta a mim mesma.
Estar só é, às vezes, a forma mais inteira de companhia.
No balançar
O mar sempre me chama.
É imenso demais para caber nos olhos
e, no entanto, cabe inteiro no coração cansado.
Mergulho.
A água salgada me recebe como se fosse mãe,
como se soubesse de todas as inquietudes
que carrego nos bolsos da alma.
O sal arde, mas cura também.
As ondas não perguntam nada
elas apenas dançam,
me convidam ao mesmo ritmo,
um vai e vem antigo,
um compasso que não exige resposta.
Ali eu não preciso ser grande.
A minha pequenez é aceita,
acolhida pelo gigantesco azul
que não diminui, expande.
E no balanço infinito do mar,
descubro que existir
é aprender a ser leve
mesmo quando se é tão pesado por dentro.
Porque o mar sabe:
a vida é maré:
vai, volta, leva, devolve,
e no movimento eterno
ensina o milagre de continuar.
Amizade
Como é bom, meu Deus, como é bom
ter quem veja a gente inteira.
Sem moldura. Sem medo.
Com as rachaduras e os brilhos.
Ter uma amiga que sabe o valor do silêncio,
mas que, se preciso for, faz barulho com você
e por você.
Amiga que lê no seu olho
aquilo que nem você teve coragem de dizer.
Que segura sua mão
e te devolve a si mesma.
Ela não julga quando o caos bate à porta.
Não exige performance.
Ela te ama até quando você desaprende.
E ainda assim te lembra:
você é potência, você é poema.
Ela sabe rir alto quando o riso vem,
e sabe também ser chão
quando tudo em você quer cair.
É ninho e é impulso.
É colo e é coragem.
É farol e é fé.
Porque amizade de verdade
não precisa de aplauso.
Precisa de presença.
E ela está.
Nos dias sem graça e nas festas improvisadas.
Na dor que esconde e na luz que escapa.
Ela é espelho que não distorce.
É casa sem tranca.
É amor sem cansaço.
Ter uma amiga assim
é não se perder de si.
É lembrar, em cada gesto,
que a vida, quando compartilhada,
fica mais inteira.E isso
isso é milagre.
A vida no pequeno
A vida não se grita em megafones.
Ela sussurra.
Entre o tilintar de uma colher no café da manhã
e o silêncio que abraça quando ninguém olha.
O extraordinário não veste gala,
não pisa tapetes vermelhos.
Ele vem descalço,
com os pés sujos de infância e a alma leve de quem reparou.
Reparou no riso atravessado do amigo,
na fresta de sol que dança na parede,
na respiração do outro ao adormecer.
Coisas que passam como se não fossem…
mas são.
É fácil querer encontrar sentido nos grandes feitos.
Mais difícil é enxergar que a alma se nutre do pequeno:
uma flor nascendo entre rachaduras,
uma frase dita sem pensar que salva o dia.
O extraordinário mora ali.
Quem não vê o detalhe,
não entende o todo.
E vive a correr atrás de algo que,
no fundo,
já habitava o primeiro gesto do dia.
Sentido não se encontra, se percebe.
E a vida?
É feita de migalhas.
Quem aprende a saboreá-las,
nunca mais passa fome de existir.
Te amo o bastante
Deixar ir…
não é desistência.
É coragem.
É saber que o amor que prende
nunca foi amor.
Foi um medo disfarçado de abraço apertado demais.
O amor de verdade é leve.
É vento nas costas,
rio que segue seu curso mesmo depois da margem,
mesmo depois da ponte.
Eu entendi que tudo o que havia para ser doado
foi entregue com ternura, com inteireza, com alma.
Não falta mais nada.
Agora, é hora de deixar fluir.
Como as folhas que caem, sem drama,
para que outras nasçam,
mais verdes, mais vivas.
Como o pássaro que, mesmo com saudade do ninho,
precisa voar.
Sim, deixar ir dói,
mas dói como crescer dói,
como romper a pele antiga para caber no novo.
Deixar ir não é o fim do amor.
É o seu auge.
Porque só quem ama de verdade
permite que o outro siga,
permite que o próprio coração respire,
permite que a vida aconteça sem grades,
sem culpa, sem espera paralisante.
Amor é liberdade.
E eu te amo o bastante
para te deixar ir.
Cauã
Cauã é nome de voo.
Mas ele não precisou de asas para tocar o alto.
Chegou antes do tempo,
mas com o tempo nas mãos, como quem sabe:
“é aqui que se começa a lição”.
Silêncio de menino é coisa séria.
No dele, moram planetas inteiros,
ideias que não pedem plateia,
gestos que doam sem barulho.
É aquariano, esse menino.
Vê o mundo de cabeça para cima,
com olhos que não se contentam com o raso.
Enquanto uns falam, ele pensa.
Enquanto outros se armam, ele oferece colo.
Cauã não foi moldado pelo comum.
Ele é a dobra no tecido do destino,
o desvio necessário,
o milagre que veio ensinar
que força não é barulho, é fé.
Ele é manso.
Mas cuidado: há oceanos mansos
que afogam sem fazer marola.
Ele é forte.
Mas força que ergue sem ferir,
daquela que abraça sem prender.
Cauã me ensinou que viver
é seguir mesmo sem garantias,
e que amor é aquilo que brota
quando tudo parecia deserto.
Ele é generosidade com nome.
É menino feito estrela quieta:
ilumina mesmo em silêncio.
Luiza
Luiza não cabe em molduras.
Ela escolhe as próprias cores
e às vezes pinta fora da linha,
não por erro, mas por coragem.
É menina que não se dobra,
mas sabe dançar com o vento.
Carrega no peito a força sutil
das coisas que ainda estão se inventando.
Tem o olhar de quem vê
o que os adultos esqueceram:
a simplicidade de uma cartinha,
o espanto de uma nuvem cor-de-rosa,
a poesia escondida nas pequenas perguntas.
Luiza se compõe nos detalhes,
como quem recolhe pedacinhos de estrelas
e monta um espelho onde só cabem verdades.
Ela é flor que não pede licença para florir.
É tempestade mansa.
É infância que sabe ser liberdade.
E quando caminha,
carrega consigo o mundo novo
que só as almas autênticas sabem construir.
Como quem muda os móveis
Ressignificar é como mover os móveis da casa.
Nada de novo entrou e ainda assim tudo mudou.
A mesa que antes era ponto de partida
vira agora abrigo de chegada.
O sofá, cúmplice de silêncios antigos,
ganha nova paisagem ao virar-se para o sol.
É quase mágico: o gesto mínimo
reabre a janela dos sentidos.
Talvez seja isso.
A alma também precisa de redecoração.
Trocar a lembrança de lugar,
encostar o ressentimento na parede do fundo,
dar destaque à ternura esquecida no canto.
Há um tipo de amor
que mora no ato de mudar a cadeira de posição
só para ver o outro melhor.
Há um tipo de cura
que vem ao esbarrar, por acaso,
com um afeto antigo em um corredor refeito.
E seguimos, entre paredes conhecidas,
descobrindo que o caminho muda
quando mudamos o modo de caminhar.
Ou de habitar.
Como Clarice escreveria:
não são os móveis, é o modo de estar neles
que acende outra luz.
Deixar ir o amor vivo
Existe dor mais viva que essa?
É como arrancar um raio de sol do peito
sabendo que outra manhã virá,
mas sem calor.
Ele pulsa ainda,
grita em silêncio dentro de mim,
feito flor que não sabe que a terra secou
e insiste em florir.
Mas eu sei.
Sei que o solo partiu com ele,
que o húmus virou memória,
e que regar esse amor agora
é perder a água que me resta.
Desapegar não é falta de amor.
É amor por mim.
É caminhar descalça
numa estrada feita de cacos
e mesmo assim seguir,
porque lá adiante
talvez haja leveza.
Doer dói.
Dói como despedida sem adeus.
Como abraço que não se deu.
Como um grito que virou pedra na garganta.
Mas deixar ir
é confiar que a dor tem fim.
Que o penhasco não é morte,
é voo.
E que ao soltar esse amor,
por mais que ele ainda grite em mim,
eu finalmente poderei
ouvir o sussurro da minha própria liberdade.
Sou possível
Nos encontros não sonhados,
há mais de mim do que eu sabia.
Um reflexo torto no espelho alheio
me revela inteira e partida.
Fragmentos do ser
deslizam pelos olhos do outro,
sem pedir licença,
sem prometer ficar.
Eu, que me pensava feita de certezas,
me encontro dispersa em silêncios
que nunca planejei ouvir.
Há mãos que não segurei
e ainda assim me tocam.
Palavras que não busquei
e que me habitam como casa antiga.
São nesses acasos sem nome
que a alma se recolhe para dentro,
não para se esconder,
mas para se reconhecer.
E então, sou pedaço.
E por ser pedaço sou possível.
Porque o todo, esse engano bonito,
só nasce no espanto dos encontros não sonhados.
Enquanto não vem, eu me reconheço
Estou aprendendo a ficar comigo.
Não porque desisti do amor, mas porque
parei de procurá-lo em corredores
onde só ecoava a minha própria voz.
Descobri que o silêncio também responde.
Que o tempo não atrasa nem adianta.
Ele só espera que eu esteja pronta.
Há uma névoa no meu peito.
Não é tristeza, é uma saudade que ainda não tem nome.
Sinto que tem algo vindo…
Mas não corro mais em direção ao desconhecido com os olhos fechados.
Agora eu caminho com o coração aceso.
Sonho com um amor que não me peça explicações.
Que me olhe com olhos de quem vê
e não apenas com os olhos de quem quer.
Um amor que chegue como o sol da manhã:
sem pressa, mas certo.
Entre as minhas dúvidas e o que virá,
há uma escolha sendo feita:
a de me amar primeiro.
Não como um escudo, mas como solo fértil.
Porque o que for amor de verdade,
vai saber me encontrar inteira.
E quando vier, eu estarei aqui
não esperando, mas vivendo.
Carta da alma ao amor que ficou
Eu te amei com a calma de quem aprendeu a escutar o tempo.
Te amei com a força de quem já se curou da pressa, mas ainda sangra nos silêncios.
Te amei no instante e no depois. No toque e na espera.
No que foi dito e no que ficou entre as palavras.
Você chegou como quem acende um canto adormecido do peito.
Como se eu te conhecesse de outras vidas ou de um sonho bom que não queria acordar.
E foi assim: me dei inteira, mesmo sem saber se havia espaço.
Toquei a sua liberdade com os dedos da minha esperança.
Respeitei o seu tempo, mesmo quando o meu gritava por você.
Mas o amor, ah…
O amor não é só estar.
Ele também é deixar ir sem se perder.
É amar sem tomar.
É compreender que cada alma tem seu caminho e que, às vezes, os caminhos se cruzam para que ambas aprendam a caminhar sozinhas.
Você me ensinou a amar o invisível.
A escutar sem ouvir.
A sentir mesmo sem toque.
A permanecer, mesmo quando tudo ao redor dizia para eu ir.
E eu fui.
Fui por amor.
Fui porque entendi que a cura mora na aceitação, e não no controle.
Fui porque te amar também era me amar.
Hoje te acolho, onde quer que você esteja.
Porque tudo o que foi verdadeiro ainda vive em mim.
Não como saudade amarga,
mas como água doce de uma fonte que me ensinou a ser mais alma do que medo.
E se um dia nossos olhos se cruzarem outra vez (e vão) não será como antes.
Será com mais leveza, menos urgência e a mesma verdade:
o amor não termina, ele apenas muda de forma.
Com amor, a parte de mim que ainda te reconhece em silêncio.
Mudar
Mudar…
não é sair de mim, é entrar.
Não é fugir da casa, é abrir janelas.
Mudar não é me trair.
É escolher o que em mim
ainda pulsa mesmo depois da tempestade.
Às vezes, é só um ângulo.
Eu olhava pela fresta
e agora olho pela fresta com olhos novos.
Ainda sou eu.
Mas agora, com coragem de permanecer
sendo o que é real.
Porque mudar não é me refazer de novo,
como quem rasga a pele pra nascer outro.
É despir o que endureceu em mim
pra que o que é vivo respire.
É aceitar que a rota mudou,
mas o destino ainda é o mesmo:
ser inteira. ser leal. ser verdade.
Eu mudo,
porque permanecer intacta
seria me perder.
Mudar é amar tanto o que sou
que me recuso a me abandonar
no conforto do que já não serve.
Eu mudo
para preservar o que é meu.
O que é genuíno.
O que é eterno.
O Silêncio da Espera
No começo era um silêncio que pesava.
Não o de ausência, mas o de excesso:
de pensamentos embolados,
de futuros incertos,
de vontades que ainda não sabiam o nome que tinham.
Esperar, verbo que me mastigava lenta.
Não era paciência.
Era um nó.
Era um eco sem origem,
um relógio que batia dentro do peito e não no pulso.
Havia dias em que eu mesma era só intervalo.
Entre um gesto e outro,
um suspiro cansado.
O mundo seguia, apressado,
e eu ficava,
ficava como quem aguarda uma carta sem remetente,
mas com fé na chegada.
Então…
num desses silêncios,
alguma coisa mudou.
Não foi barulho.
Foi quase nada.
Foi como se o coração tivesse aprendido a sentar.
E esperar com os olhos fechados.
A espera deixou de ser fome.
Passou a ser espaço.
Morada.
Encontrei, ali no meio,
a razão sutil da escolha.
Não era o que viria.
Era o que eu já era,
apesar da demora.
E o silêncio, agora leve,
fez-se colo.
Fez-se música sem som.
Fez-se aceitação.
Não de perder o tempo,
mas de dançar com ele.
E eu?
Eu já não esperava para viver.
Esperava,
e vivia.
Amor sem ilusão
Não existe amor perfeito.
E ainda bem.
Porque o que é perfeito não se move, não pulsa, não tropeça
e eu preciso de tropeços para lembrar que estou viva.
Não existe pessoa perfeita.
Existe carne, alma, susto.
Cicatrizes que não se mostram na primeira conversa,
mas que pedem silêncio e um colo na terceira.
A gente se encontra assim:
meio tortas, meio medrosas,
mas com a coragem de quem já sangrou e ainda assim… quer amar.
A maturidade aprendi
não é ser invulnerável.
É saber que aquilo que digo deixa marcas.
E que se você chora, eu me importo.
Porque sua dor tem nome, e mora aqui comigo quando eu te amo.
Não é conto de fadas.
É costura.
Linha e agulha.
Dia bom, dia difícil.
Uma conversa que machuca,
e outra que cura.
Relação não é encaixe,
não é procurar a metade.
É transbordo.
É chegar cheia,
e ainda assim, querer dar mais.
Amar não é se completar
é ter tanto de si que o outro cabe inteiro,
com seus medos, suas falhas, suas tentativas.
E mesmo assim, dizer:
“Eu fico.
E fico de verdade.”
Desfazer as malas
O amor rejeitado sem palavras,
sem porquês
dói num lugar que nem sabia que existia.
É um não que ecoa dentro,
com voz baixa e contínua,
como um relógio que parou,
mas insiste em fazer barulho.
Fiquei esperando uma explicação.
Como quem espera um trem que já descarrilou,
mas não soube ainda.
Até entender que há silêncios que também são respostas.
E que a ausência de justificativa é,
às vezes, a forma mais cruel de dizer adeus.
Então sentei.
Sozinha.
E fui desfazendo as malas.
Primeiro tirei os planos.
Depois, as palavras que imaginei ouvir.
As promessas feitas.
Desdobrei lembranças,
sacudi os sonhos,
guardei os restos de mim.
E percebi:
a bagagem era leve demais para tanto peso.
Foi aí que o vento me tocou de novo.
Um abraço antigo, esquecido.
Quase pedi desculpas por ter me ausentado.
O sol, ainda tímido,
passou por entre as folhas do outono
e me achou.
Como se dissesse:
“Voltou, então.”
E voltei.
Com menos dor,
mas mais verdade.
Com mais espaço dentro,
menos fantasmas nos cantos.
Porque a paz, às vezes,
não é encontrar o amor.
É se despedir dele com leveza.
É saber que não era seu
e mesmo assim ter amado.
E seguir.
Mais inteira.
Mais sol.
Mais vento.
Ponto de Vista
Há um instante, quase invisível,
em que a vida se mostra inteira:
não no grito, mas na pausa.
O ponto de vista…
não é só onde se olha,
mas de onde se sente.
E eu sinto com as vísceras
ou não sinto de forma alguma.
Os detalhes… ah, os detalhes!
são as pegadas de Deus disfarçado de rotina.
Um olhar de lado,
um café morno esquecido na mesa,
um arrepio sem vento.
Nisso mora o mistério.
Tenho medo dos abismos, sim.
Mas mais ainda do que não salta.
Do que se apequena na beira
e aprende a chamar isso de segurança.
E existe o medo terrível do não-vivido,
da história que não foi escrita
porque o peito se trancou
antes da primeira linha.
Há dores que nunca senti,
e mesmo assim me moldaram.
Dores imaginadas, dores herdadas,
dores que só existem porque sou capaz de senti-las,
ainda que jamais me escolham.
Mas a verdade
A verdade é uma brasa silenciosa:
queima, mas não destrói.
Ilumina por dentro
como quem sabe que viver
não é vencer o medo,
é dançar com ele.
E é preciso força.
Mas não a força de quem endurece,
e sim a de quem permanece macio
mesmo depois de tudo.
A força de não se fechar,
de continuar sentindo,
continuar tentando,
continuar…Viver é aceitar os riscos
de existir com inteireza.
É olhar de um outro lugar
e perceber que, às vezes,
o abismo era só o começo de um voo.
Incompleta de mim
Há em mim um medo tão inteiro
que me parte.
Um receio manso de sentir demais
e sangrar sem aviso.
Vivo como quem desvia do espinho
mas também da flor.
Fujo das dores
e perco os amores,
sem ao menos tê-los.
Quis tanto a segurança
que me fiz ausência.
Quis tanto a certeza
que esqueci da vida,
que é essa coisa incerta
que pulsa entre o sim e o talvez.
A inteireza
ah, essa palavra bonita e difícil
não mora no fim.
Mora no passo.
No tropeço.
No risco de não voltar igual.
E talvez seja isso viver:
Aceitar que não há mapa.
Há apenas caminho
e a coragem de ser
mesmo sem saber onde vai dar.
Ferida calada
Não é no grito
que a dor se revela
ela sussurra,
esconde-se no silêncio,
no gesto que não pede ajuda,
no orgulho que não se dobra.
Um corpo cansado,
uma alma que sangra
sem permissão para mostrar.
E no deserto da palavra,
alguém espera, insiste,
quer cuidar da ferida
mas a outra mão se afasta,
fecha-se a porta do diálogo.
Terminar sozinho
é deixar a ferida aberta,
sem remédio,
sem quem escute o medo,
sem quem cuide do medo.
Há uma solidão que não é ausência,
é silêncio que mata,
é o abandono de si,
é a fuga da vulnerabilidade.
Mas talvez,
no fundo da ferida,
algo grite:
quero ser visto,
mesmo que em pedaços.
E quem insiste
em cuidar,
sabe que o amor é isso:
o delicado ato de tocar
onde dói,
mesmo quando não querem.
Como quem não sente
Olhei.
mas não era o outro.
era eu em mim sendo vista por ele.
E jurei. Jurei que não me importava.
que aquele olhar não atravessava a pele,
nem a alma,
nem o dia.
Mas doeu.
devagar.
na beiradinha do sentir,
onde a gente finge que não mora.
Há olhos que nos pegam pelo avesso.
e a gente, tão cheia de armaduras,
esquece que deixou a porta entreaberta.
Não era amor.
não era ódio.
era só um reflexo, talvez.
Mas refletiu em mim,
e isso já era demais.
Sou feita de pedra mole.
dessas que o tempo fere,
o vento risca,
e o outro só de olhar racha.
E sigo assim,
quase firme,
quase imune,
Mas inteira.
O que não se vê
Há um mundo que respira
entre a fresta da janela e o chão da rua.
Um raio de sol
brinca de esconde-esconde
nas folhas da planta.
E ninguém vê.
O céu se derrama, inteiro,
numa poça esquecida no asfalto.
Espelho dos deuses,
mas os pés passam rápido,
sem nem pedir licença.
E ninguém nota.
A folha caída com veias mais finas
que as de um coração está ali,
dizendo algo sobre finitude e beleza.
Mas o olhar quer espetáculo,
e a folha não brilha.
Então, ninguém para.
O tronco da árvore carrega cicatrizes.
Histórias rugosas de tempo e vento.
Cada arranhadura é uma linha de vida.
Mas o tronco é só tronco
para quem passa com pressa.
A fumaça do café…
Ah, ela dança.
Lenta, íntima,
sobe com uma leveza que parece oração.
Mas o mundo quer urgência,
e não vê o milagre que borbulha na xícara.
Vivemos cegos de grandiosidade.
Buscando o extraordinário
com olhos que recusam o real.
Mas tudo o que é eterno
mora no pequeno.Porque é no quase nada
que mora tudo.
Sempre estive aqui
Ela achou que me completava.
Como se eu fosse uma página em branco
e ela, a palavra final.
Mas eu já era livro antes.
Com capítulos tortos,
margens gastas,
e uma história que doía,
mas que era minha.
Ela chegou com brilho nos olhos,
mas com um peso escondido nas mãos:
queria me encaixar.
E eu sou desencaixe por natureza.
Não vim pra caber.
Vim pra ser.
Houve um tempo em que sua presença era maré alta,
um transbordar de riso e susto,
de descobrir que havia mais,
mesmo sem precisar.
Era bom.
Era bonito.
Era mais.
Mas não era falta.
E então o olhar dela mudou.
De espelho passou a lupa.
De encanto, virou medida.
De afeto, sentença.
Eu virei excesso.
Porque não era molde.
Porque não fui o que ela precisava que eu fosse
para confirmar o que pensava de si.
Ela foi.
Levou o barulho.
Levou o espanto.
Ficou o silêncio.
E dentro dele,
minha inteireza intacta.
O transbordar cessou sim.
Mas o que sou
sempre esteve aqui.
Desbotar
Foi um não.
Sem rasgo, sem cor.
Um não que se ouve com o corpo inteiro,
mas que não faz barulho.
Não era tempestade.
Era a ausência da chuva depois de prometer trovoada.
Como se o céu tivesse decidido
não mais ser céu
simplesmente porque sim.
Fiquei com os restos.
Não os dramáticos, não os românticos.
Os restos de dentro.
Aquele silêncio que não preenche,
mas que pesa como se tivesse forma.
Ela disse:
“Não quero mais.”
E havia nisso a mesma leveza com que se joga no cesto
uma camiseta velha,
que já foi preferida,
mas agora não combina com nada.
Não houve explicação.
Nem mesmo a mentira elegante.
A verdade, crua e sem perfume,
foi só isso: um “não querer mais”
dito com a praticidade de quem troca a estação do rádio.
E então eu fiquei.
Sem música, sem estação.
Sem me saber inteira.
Não era rejeição
era pior:
era inutilidade.
Agora,
visto o silêncio.
Combina com tudo.
Virtudes de uma menina
Em um campo de risos e sonhos,
Uma menina caminha, com passos de mar.
Virtudes que dançam em seu coração,
Semeando bondade, amor e razão.
Olhos de esperança, profundos e claros,
Ela abraça o mundo.
Generosa em gestos,
Em cada sorriso, um ato gentil e igual.
A coragem é sua, em desafios que vêm,
Ela enfrenta a vida, se ergue também.
Com fé em seus sonhos, que o céu vai tocar,
Acredite, pequena, você vai brilhar.
A verdade é seu lema, um farol a guiar,
No jogo da vida, ela sabe jogar.
Com empatia no peito, ouve o que é dito,
Em cada palavra, um carinho infinito.
E ao olhar para as estrelas, com brilho e com paz,
A menina entende que o amor é capaz
De transformar o mundo, de curar a dor,
E em cada virtude, ela espalha o amor.
Assim, uma menina, com alma tão pura,
Nos ensina a vida, a mais bela postura.
Que possamos aprender com seu jeito gentil,
Cultivar essas virtudes, um sonho sutil.
Tempo irrealizável
No relógio das horas que nunca se finda,
Um eco de sonhos, na brisa, se vai.
Caminhos traçados em nuvens de anseios,
Teimosos sussurros de um amor sem arreio.
A ampulheta dança em hastes de ilusão,
Cada segundo escapa, fugaz em sua missão.
O passado é um eco que insiste em voltar,
Enquanto o futuro, em neblina, estar a se desenhar.
O relógio é um artista, pintando esperanças,
Mas suas cores desbotam em tristes lembranças.
Tempo irrealizável, entre dedos escorregadios,
Um palco vazio onde o sonho é um desafio.
O que poderia ter sido, nos lábios, um canto,
Se não fossem as normas, os medos, o pranto?
Mas no espaço das horas, há sempre uma luz,
Um lampejo de vida que a alma traduz.
E assim, entre sombras, o tempo se esvai,
Desenhos impossíveis que o coração traz.
Mas a beleza reside nesse eterno esperar,
No tempo irrealizável, onde tudo pode brotar.
Te amo assim
Te amo nos silêncios que preencho com teu nome, nas xícaras de café que preparas ao amanhecer, e no modo como dobramos juntas o tempo em lençóis amassados e promessas sussurradas.
Te amo nas curvas do teu corpo em minhas mãos, quando o mundo estremece e tu permaneces firme como um farol na tempestade, sendo o porto onde me aninho. É tua paciência que escorre em gotas silenciosas, um rio que não pede nada e ainda assim me atravessa.
Te amo no gesto de abrir a janela e deixar a luz tocar os cantos escuros. Teu olhar que planta primaveras em jardins que pensei estéreis.
Te amo na forma como percebes o invisível, os detalhes que ninguém vê, o silêncio que só você escuta. O cobertor que ajusta sobre meus ombros, o chocolate escondido entre as páginas do dia.
Te amo no silêncio da tua presença, na paz que brota de existir contigo, no gesto simples de escolher estar aqui quando o mundo nos chama para longe.
Te amo nas pequenas mortes do ego, quando me ensinas a ser vulnerável, a me despir das muralhas que erigi. E amo a coragem que encontras em mim quando teu sorriso reflete o meu.
Te amo assim, de forma tão profunda, que as palavras tropeçam, os gestos assumem. E no pequeno, no mínimo, no instante, está toda a vastidão do que somos.
Sentir
A mulher canceriana não ama
ela mergulha.
Com o corpo inteiro, com o peito aberto,
com a alma estendida
como vela ao vento.
Ela não teme as ondas,
porque nasceu do mar.
Sente fundo,
vive largo,
espera que cada segundo
se transforme em eternidade.
Ela ama como quem escreve memórias
na própria pele,
com letras de afeto
e tintas de silêncio.
Nada é raso em seu mundo.
Um olhar pode ser poema,
um toque, promessa.
E um beijo?
Ah…o beijo é o início de um lar.
Mas o sentir dela também fere.
Não por fraqueza, por verdade.
Cada cicatriz guarda o nome
de um amor vivido,
de uma entrega sem freio,
de um sonho que coube no peito
até transbordar.
Ela coleciona lembranças
como quem guarda conchas raras.
Mesmo as partidas,
mesmo as dores,
são parte do que a torna inteira.
Porque a mulher canceriana
não se arrepende de ter amado.
Ela sabe que cada ferida
foi uma lição esculpida
em maré alta.
E mesmo quando chora,
há beleza em seu sal.
Porque amar, para ela,
é o que dá sentido à vida.
E sentir, sentir é sua forma de existir.
Quando o inesperado chega
Chegam sem aviso, os encontros.
De mansinho ou como vendaval,
desalinhando certezas,
remexendo calmarias.
Trazem nos bolsos novas lentes,
ângulos que o olhar não alcançava,
e uma coragem tímida, porém firme,
de redesenhar o que parecia traçado.
No toque, há a ternura da probabilidade;
na palavra, a sinceridade que desarma.
E na troca, o amor que não exige,
mas floresce na leveza de ser.
São como tardes em que o sol,
contra todas as variações,
rompe as nuvens e enche o céu
de núcleos que não se esperava ver.
E assim, nos moldamos suavemente,
feito o vento que esculpe a montanha,
fazendo do encontro a lembrança
de que o novo sempre pode ser casa.
Ponto final nas nuvens
A despedida veio sem dizer adeus,
como brisa que apaga a chama
sem soprar.
Foi silêncio entre duas respirações,
o instante em que os olhos ainda se buscavam
mas já não se viam.
Os pés, descalços nas nuvens,
ainda dançavam no vão das certezas,
e o coração, crente de eternidade,
batia leve,
como se o amor fosse sempre presente.
Mas o ponto final não faz barulho.
Não grita, não cai,
apenas pousa.
E pesa mais do que qualquer grito
porque vem manso,
sem pedir licença.
Viver com intensidade
é colher beijos com as mãos nuas,
é confiar que o agora
tem raízes no sempre.
E por isso, quando o fim chega,
carrega o peso do que foi pleno,
do que ardeu sem medo.
O amor leve deixa rastros pesados
quando parte.
É como acordar de um voo
sem perceber o pouso
já não se voa,
mas ainda se sente o céu nos ombros.
A dor da despedida
é não saber onde guardar
um amor que foi inteiro.
É olhar para o vazio
e ainda ver beleza.
Porque amar é leve,
mas o fim
o fim tem o peso
de tudo que valeu.
Existir
Não basta o passo firme no chão,
se a alma vagueia em silêncio,
é no sentir que a vida se acende,
é no peito que o mundo tem peso.
Existe quem anda sem alma,
quem respira sem nunca se ouvir,
mas quem sente, ah! quem sente,
sabe o que é, enfim, existir.
É dor que rasga e cura,
é riso que vem sem razão,
é o arrepio da noite vazia
e o calor súbito da paixão.
Sentir é cair e levantar,
é tocar o invisível, o incerto,
é fazer do peito um lar,
mesmo quando o mundo está deserto.
É lágrima que molha o tempo,
é o silêncio que grita por ti,
é o abraço que guarda memórias
de tudo o que um dia vivi.
Porque viver é verbo com alma,
e alma só pulsa ao sentir.
O corpo é casa do instante,
mas é no sentir… que se pode existir.
Miudezas
Nas miudezas da alma, um sussurro profundo,
Pequenos fragmentos que tecem o mundo.
Na dança do dia, em sombras e luz,
Estão as nuances que a vida produz.
Um sorriso perdido, um olhar que flutua,
Lembranças que brotam como flores na rua.
Os medos escondidos, os sonhos fugazes,
São como estrelas em noites de fases.
Um toque sincero, um gesto de calma,
São sementes que brotam nas miudezas da alma.
A esperança que brilha em meio à dor,
Um canto suave que fala de amor.
A fragilidade, essa força tão forte,
Que nos leva a buscar um novo norte.
Nos pequenos momentos, a vida se revela,
E a alma se embeleza, como uma aquarela.
Assim, nas miudezas, encontramos a paz,
Em cada detalhe, o que a vida traz.
E ao olhar com cuidado, com ternura e sem pressa,
Descobrimos a beleza que a alma confessa.
Inteireza do ser
Sou mar, não por vastidão apenas,
mas por ser inteira em mim.
Carrego calmarias e tormentas,
mas nunca fui meio, nem fim.
Não me divido em metades de alma,
não sou pedaço esperando juntar,
sou inteira, em silêncio ou fala,
sou presença, sou verbo: estar.
Quem vem, não vem pra preencher espaço,
porque vazio, em mim, não há.
Quem chega, transborda o compasso,
derrama amor sem precisar salvar.
A entrega que tenho é oceano,
não se mede, não se contém,
é sal que arde e é doce engano,
é porto e partida também.
Não aceito quem busca metade,
ou quem teme se despedaçar,
sou feita pra quem tem vontade
de mergulhar sem se poupar.
Porque ser inteiro é escolha,
é coragem de não se omitir,
e amar é deixar que acolha
quem vem não pra ter, mas fluir.
No encontro de inteiros, se dança,
como mar e lua a se tocar.
O amor, então, vira bonança,
e a alma aprende a… transbordar.
Encontros inesperados
No tropeço suave do acaso,
na curva sutil do destino,
duas vidas se encontram,
sem aviso, sem roteiro,
como rios que se abraçam ao mar.
É no silêncio do imprevisto
que as almas se reconhecem,
não pelo que esperavam,
mas pelo que nunca sonharam.
Um sorriso que desvenda segredos,
um olhar que desarma barreiras.
Na leveza de um instante fugaz,
desenha-se um infinito possível.
O inesperado vem como brisa,
tocando o que parecia intocado,
despertando cores escondidas
em paisagens há muito adormecidas.
Esses encontros são mistérios doces,
ecos de algo maior que o tempo,
a lembrança de que a vida floresce
onde menos se espera.
E seguimos, sem pressa, sem mapas,
com o peito aberto ao incerto,
porque é no improvável da jornada
que os milagres aprendem a acontecer.
De onde vens?
De onde vem o caminho que me leva à libertação? Dos sonhos que me nutrem, das angústias que me rodeiam, dos labirintos que percorro? Das vozes que me ecoam ou dos olhares que me banham?
Do tempo que me sussurra segredos entre as areias, das memórias que se escondem sob as brumas do passado, dos passos firmes que traço entre sombras tão alheias, ou das dores que transformo num alento delicado?
Virá, talvez, das estrelas que desenham meu destino, Ou do vento que me guia sem descanso, sem demora, Dos versos que em silêncio vão moldando o meu caminho, Ou da luz que, mesmo tímida, insiste e sempre aflora?
Será do mar infinito que me embala em suas ondas, do mistério das marés que se erguem e se desfazem, das verdades tão sutis que na alma se escondem, ou das lutas que me forjam quando as forças já me faltam?
Quem sabe, vem da esperança que renasce a cada dia, do encanto que persiste entre ruínas e cansaços, dos sonhos que resistem, mesmo em meio à melancolia, ou do amor que, em silêncio, vai curando os meus espaços.
E assim eu sigo, entre dúvidas e passos tão incertos, buscando nas entrelinhas o sentido que me chama, pois sei que há, mesmo oculto, um horizonte sempre aberto, e no peito a chama branda que persiste e nunca inflama.
Dançar de almas
Dançam as almas sem pressa, sem chão,
como quem se reconhece no toque,
como quem esquece a razão
e se entrega, feito mar em reboque.
É doce o sabor do começo,
como fruta mordida no pé,
é leve, é louco, é tropeço
no instante em que tudo dá fé.
O frio na barriga anuncia
que algo maior vem no ar,
e o peito, em ventania,
descompassa sem tentar disfarçar.
É paixão em forma de vento,
é dança de olhos fechados,
é riso solto, é o tempo lento,
é beijo em silêncios trocados.
Não trago medo no peito,
nem medo de me ferir.
Cada marca é meu enfeite,
cada história, meu existir.
Sou quem ama sem cercas,
sem redes, sem rota traçada,
sou porto e sou vela aberta,
sou alma que dança encantada.
Que venham risos e quedas,
que venham noites sem fim,
amar é viver sem rédeas
e eu quero tudo isso em mim.
Coração casa de maré
É preciso coragem para amar com alma de maré,
com essa intensidade canceriana
que constrói lar até no olhar de alguém.
É abrir o peito como porta destrancada,
convidando o outro pra entrar
sem saber se vai ficar.
A cada gesto, uma promessa silenciosa.
A cada toque, uma semente plantada
em terreno fértil de sonhos e receios.
Porque o medo vem, vem sim,
feito sombra na esquina do riso.
Sussurra: e se doer?
Mas o coração responde: e se for bonito?
É uma dança entre dúvida e desejo.
Um passo na direção do abismo,
com os braços abertos
como quem espera o voo ou o abraço.
Amar assim é se machucar, talvez.
Mas é também colecionar
baús cheios de histórias
com cheiro de flor,
som de riso partilhado,
e cores que o tempo não desbota.
São memórias que tocam a pele
mesmo quando o outro já não toca.
São cartas escritas com os olhos,
guardadas no peito como relíquias
de quem teve coragem de viver
o amor em estado bruto.
E no fim, mesmo que doa,
é sempre mais leve
ter amado inteiro
do que nunca ter aberto a janela
com medo da tempestade.
Aos 44 amei
Aos 44, o amor, que eu julgava meu velho conhecido,
chegou como um mar indomado,
abraçando as margens do meu peito,
trazendo à tona uma lindeza esquecida,
um brilho que, há muito, não habitava meus olhos.
E eu, que já dançara em tantas marés,
não sabia que o mar podia ser assim:
quente, profundo, infinito,
capaz de me afogar e salvar no mesmo instante,
como quem descobre a vida no escuro da alma.
Não houve lamento, nem lágrima vazia.
O amor não era ausência, mas energia.
Uma faísca sussurrando entre os dias,
“Viva!”, dizia ela, com o peso de mil verdades,
e eu vivi.
A manhã, antes tímida,
vestiu cores desobedientes.
Até o silêncio das paredes parecia cantar,
e o chão que eu pisava,
era mais firme, mais meu.
Era como se uma chave,
perdida na gaveta do tempo,
abrisse portas invisíveis,
onde desejos dormiam,
e sonhos esperavam, pacientemente, por mim.
Ah, o amor plantou raízes no meu peito!
E como planta sedenta de espaço,
ele pediu mais:
mais ar, mais vida, mais chão,
e eu cedi, com gosto, cada pedaço meu.
Era um raio de sol
a iluminar as frestas,
as sombras que eu nem sabia guardar.
Era calor que não queimava,
mas fazia brotar.
E se aos 44 experimentei o amor,
não foi como o sabor já provado.
Foi outro gosto, outro toque,
que ensinou meus sentidos
a viver pela primeira vez.
Cada gesto simples,
o café quente na xícara fria,
a brisa tímida no final da tarde,
até o som da chuva no telhado
tornou-se arte.
Descobri que o amor,
não era apenas sobre o outro.
Era um espelho,
onde vi a mulher que eu era,
e a que eu poderia ser.
Não, o amor não veio me completar,
veio me transbordar,
me ensinar que o vazio
também é espaço fértil
para novos jardins.
E aos 44,
não encontrei o amor tardio,
mas o amor na hora exata.
Ele não perguntou se podia ficar,
e eu, pela primeira vez,
soube o que era dizer:
“Entre, amor, aqui é sua casa.”
Acaso
Há caminhos que se cruzam sem mapas,
passos que se encontram sem planos.
Entre a pressa dos dias e o silêncio da espera,
surge, inesperado, o brilho de um olhar.
Não há anúncio, não há convite,
somente o sopro sutil do destino.
E, de repente, a vida pede outra lente,
outro ângulo para olhar o mesmo céu.
Esses encontros são feitos de ventos leves,
de palavras que pousam como plumas,
de uma sinceridade tão clara, tão simples,
que dissolve as sombras do coração.
Trazem o toque delicado do amor,
não como tempestade, mas como brisa,
revelando que, mesmo no caos,
há espaço para a leveza do sentir.
Eles desafiam as certezas firmes,
ensinam que o acaso é sábio,
e que, às vezes, é no inesperado
que mora a parte mais bela do caminho.
Assim seguimos, com olhos mais ternos,
aprendendo que encontros são dádivas,
e que há na vida uma poesia oculta,
esperando o momento certo de florescer.
